Um ministro com visão da importância da C&T para o país: Professor Antônio Dias Leite

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Fernando Lins, Antônio Dias Leite Júnior e Roberto Villas Bôas - Foto: Cetem.

Faleceu em abril, aos 97 anos, o Professor Antônio Dias Leite Júnior. Formado em Engenharia Civil e Mecânica pela Universidade do Brasil – atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – ele trabalhou alguns anos nos Estados Unidos e retornou ao Brasil nos anos de 1940, ao ser convidado por Eugênio Gudin para trabalhar nas contas nacionais, na Fundação Getúlio Vargas (FGV). O professor foi responsável pela publicação do primeiro Produto Interno Bruto (PIB) do país, em 1951. Nesse tempo, ele ingressou na UFRJ, lecionando na Escola de Engenharia e no Instituto de Economia. Em 1985, Dias Leite se aposentou e recebeu o título de Professor Emérito.

Soma-se ainda ao currículo dele a Presidência da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) – hoje Vale – em 19671968. Até então, a empresa era vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). O brilhante docente foi ainda designado Ministro das Minas e Ener
gia em janeiro de 1969, cargo que exerceu até março de 1974.

Na celebração do 30º aniversário do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), em 2008, tivemos o depoimento* do primeiro Diretor da instituição, o saudoso Professor Roberto Villas-Bôas, que nos deixou no ano passado. “Com a reestruturação do Estado brasileiro, ocorrida em meados da década de 1960, novos papéis são destinados ao Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM). Em 1969, é criada a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), subordinada ao MME. No DNPM, extingue-se o Laboratório da Produção Mineral (LPM)”. Continua Villas-Bôas: “(…) formulam-se, na estrutura do MME, suas autarquias e empresas mistas, vários Centros de Pesquisa e Desenvolvimento, entre eles o Cetem. Prevaleceu, mais uma vez, a visão estratégica de Dias Leite, situando os Centros, todos ou quase todos, no campus da UFRJ”.

O próprio Dias Leite comentou*: “Cada uma das instituições de pesquisa no domínio da mineração e da energia instaladas a partir da década de 1970, no campus da UFRJ, teve história distinta, decorrente da forma de sua inserção na estrutura administrativa do governo. Tiveram como fundamento comum a aproximação entre a pesquisa acadêmica, em grande parte de caráter científico, que se realiza na Universidade, e as de interesse empresarial, focadas no progresso tecnológico das respectivas atividades.”

A CPRM começou a funcionar em 1969, para avançar no conhecimento geológico do nosso território e contribuir para a descoberta de jazidas minerais. O Cetem e o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) tiveram suas construções determinadas em 1971. A construção do Cetem contou com os recursos do Fundo de Mineração, por meio dos lucros líquidos da CVRD. No campus da UFRJ já funcionava o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), e estava sendo construído o prédio do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes).

Segue o Ministro Dias Leite: “No conjunto, coube ao Cetem a tarefa mais difícil, de promover, no interesse nacional, o desenvolvimento de tecnologias apropriadas às atividades exercidas, de forma dispersa, por um sem número de empresas privadas de mineração. O Cetem foi também o que mais sofreu as consequências das incessantes modificações institucionais pelas quais passou o País. No outro extremo, o Cenpes foi o que menos sofreu, em virtude do poder econômico e político da empresa estatal a que está vinculado, a Petrobras.”

Acrescentou ainda o Professor Dias Leite sobre a sustentabilidade das instituições: “Os recursos para investimento e despesas operacionais, decorrentes de legislação específica, provinham de receitas vinculadas, mediante as quais se pretendia assegurar continuidade”.

Como se sabe, em 1989 o Cetem tornou-se, por Lei, um dos institutos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e, em 1999, passou a integrar o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC). Dias Leite fez parte do primeiro Conselho Técnico-Científico (CTC) do Centro, nos anos 1990. Finalizou o Ministro seu depoimento: “Não obstante os abalos decorrentes da descontinuidade institucional, o Cetem, pelo mérito próprio de suas equipes, trouxe significativas contribuições, de amplo espectro, para o progresso da mineração do País e merece os nossos aplausos ao completar trinta anos.”

O momento que passamos é delicado para a ciência no Brasil. Há risco iminente de descontinuidade, em face da possibilidade de cortes profundos nos orçamentos que podem comprometer por muito tempo a evolução das pesquisas em curso. Vale lembrar a compreensão do Ministro Dias Leite sobre a importância da área de Ciência e Tecnologia. Teve a clareza de visão de que a real independência em recursos minerais e energéticos do País deve ser acompanhada pari passu pelo esforço contínuo de desenvolvimento científico e tecnológico. O Cetem, sempre resiliente, vai celebrar seus 40 anos em 2018 com entusiasmo, inspirado por seu criador, que, por tudo que realizou, é merecedor de todas as homenagens.

(*) CETEM 30 ANOS – a história contada por seus fundadores. A B Luz, Coordenador e Editor, Rio de Janeiro, CETEM/ MCT, 171 p., 2008.

 



CURTAS:

PIB DA MINERAÇÃO, DO SETOR MINERAL E DO MINERALBUSINESS
Fernando Lins

Na mineração, as etapas de lavra e beneficiamento de minérios constituem uma atividade econômica definida e contabilizada nas contas nacionais pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que segue um padrão internacional, sob a denominação de indústria extrativa mineral. Sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) nacional (exclusive petróleo & gás) variou entre 1,0 e 1,5% neste século e foi inferior a 1% nos anos de 1990. Dado o protagonismo do minério de ferro, 60-70% em valor, e este sendo principalmente exportado, temos um mercado internacional de grande importância no desempenho da mineração brasileira.

A jusante da mineração vem a indústria de transformação dos minerais, ainda segundo o IBGE. Então temos a metalurgia (que inclui a siderurgia, metalurgia dos não-ferrosos etc.), com cerca de 2% do PIB. Tanto o mercado externo como o interno são importantes no desempenho da metalurgia brasileira.

Ainda na indústria de transformação, há o setor de fabricação de produtos não-metálicos (cimento, cerâmicas, vidros etc.), com pouco menos de 1% do PIB. Esse setor depende marcadamente do mercado interno, ou seja, do desempenho da economia brasileira.

Agregando-se os três setores, alcança-se a participação de cerca de 4% do PIB nacional, percentual bem disseminado na mídia especializada. Esse setor mineral, assim definido, tem colaborado com mais de 20% das exportações totais brasileiras. A mineração stricto sensu emprega aproximadamente 200 mil pessoas; o setor mineral, quase um milhão.

Serviria bem ao interesse do setor mineral se inspirar na iniciativa do setor agropecuário para mostrar à sociedade sua importância econômica. O setor agropecuário participa com 5-6% do PIB, de acordo com o IBGE. O agronegócio ou agribusiness é apresentado como responsável por 20 a 25% do PIB. Como? Somando à participação do setor agropecuário as frações correspondentes às participações no PIB de outros setores relacionados ou dependentes do setor agropecuário: transportes, mineração, química (fertilizantes), energia, equipamentos, serviços diversos etc.

Apenas a título de ilustração, uma estimativa grosseira, feita há anos, indicou que esse mineralbusiness pode alcançar a casa dos 10% do PIB nacional. Não é pouco!

 

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