*Por Milton Rego

No dia 18 de janeiro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu aceitar os resultados de uma investigação feita pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) de que o aço chinês tinha subsídios. Isso abriria a possibilidade de aplicação de contramedidas comerciais pelo setor do aço, mas, em uma decisão inédita, decidiu suspender o seu emprego por pelo menos um ano, alegando questões de “interesse público”. Pesou mais a avaliação do Ministério da Fazenda que alegava que essa medida (de taxar o aço chinês) poderia ter impactos nos preços dos produtos finais. E, é claro, quem quer brigar com o principal investidor externo da economia brasileira que, em 2017, investiu o recorde de US$ 21 bilhões?

Os setores consumidores de aço gostaram da ideia. Já os fabricantes de aço dificilmente compartilham da mesma opinião.

Eis uma escolha difícil, a verdadeira “escolha de Sofia”: em uma situação dessas, qual setor deve ser o atingido? O setor que faz os insumos e tem uma concorrência desleal dos importados ou aquele que faz os produtos finais e se beneficia dos preços artificialmente baixos? Se perguntar para cada um deles, a resposta será a mesma: quero liberar o comércio dos meus insumos e ter rígidos controles do mercado dos meus produtos.

De um modo geral, dizer que um produto brasileiro não tem competitividade em relação ao similar importado significa, em última instância, que esse produto nacional tem um custo superior do que os fabricados nos polos industriais de outros países (normalmente na China, país que se tornou a manufatura do mundo, ou ainda em outro país que lidere aquele mercado específico).

Isso vale para todos as etapas de produção: matérias-primas, semi-industrializados ou industrializados. Vemos indústrias brasileiras produzindo em outros países para alcançar mercados que não seriam possíveis a partir da produção local.

Em função disso, alguns economistas defendem maior abertura ao mercado internacional para diminuir os custos, seja das empresas, do governo ou das famílias. Esse argumento pode ser dividido em dois: 1) a abertura proporcionaria uma “corrida” da indústria nacional buscando aumento da produtividade para competir e; 2) diminuiria o custo dos produtos, aumentando a capacidade de compra das famílias e a produtividade da economia pelo barateamento dos insumos.

Olhando pelo lado dos consumidores parece ótimo. Qual família, empresa ou governo não gostaria de ter possibilidade de comprar insumos/produtos subsidiados e de países com excesso de capacidade sem nenhum tipo de impedimento ou medida compensatória?

E isso (excesso de oferta, aumento da oferta chinesa) aumentou o fluxo global de mercadorias, especialmente a importação brasileira de importados industriais.

Isso se vê claramente nos últimos anos, pelo aumento sistemático da participação de importados no mercado interno brasileiro. O aumento dos importados tem se dado especialmente nos segmentos de bens semimanufaturados, que nos últimos 20 anos aumentaram a sua participação nas importações de 3% para 4,4%, segundo o MDIC.

Estaria tudo resolvido, se o Brasil não tivesse que dar emprego para quase 100 milhões de pessoas e fosse um país desenvolvido. Mas nenhuma dessas coisas acontece.

A questão é que não somos simplesmente um país de consumidores. Somos também um país de trabalhadores que precisa produzir, gerar excedente, investir, exportar e criar postos de trabalho. Impossível sem uma indústria dinâmica, responsável no Brasil por 13% dos empregos (agropecuária 14% e comércio 17% – sendo o restante em diversas outras atividades – públicas, educação, serviços domésticos etc.) justamente aqueles melhor remunerados. Apenas nas empresas do setor de alumínio são empregadas diretamente 120 mil pessoas. Nenhum país com a população do tamanho da brasileira pode se dar ao luxo de não ter um parque industrial dinâmico.

O economista sul-coreano Ha-Joon Chang, professor da Universidade de Cambridge, dizia que “no longo prazo, a desindustrialização é um problema, porque o setor industrial é o mais confiável motor de crescimento (…) e a indústria é a principal fonte de progresso tecnológico” .

Ou seja, o Brasil precisa resolver a questão da competitividade desenvolvendo o seu parque industrial. Como? É o debate que se coloca para a sociedade e que precisamos promover em todos os setores. Outros países estão muito à nossa frente.

Há cinco anos, quando Barack Obama ainda era o presidente, os Estados Unidos fizeram um estudo (“Report to the president on capturing domestic competitive advantage in advanced manufacturing”) sobre a estratégia norte-americana para o desenvolvimento industrial. Nele fica clara a importância deste setor para o país, como bem definiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI): “A execução deste tipo de relatório evidencia a importância e a crucialidade estratégica que o país mais poderoso do mundo atribui ao desenvolvimento industrial de ponta, sobretudo em época de dificuldades econômicas. Tanto que existe um conselho específico junto à presidência para consultoria em assuntos de Ciência e Tecnologia, composto pelos maiores cientistas e engenheiros daquele país, cujo escopo é prover ao presidente maior acesso às informações e recomendações de políticas sobre o tema”.

São questões importantíssimas especialmente agora, com o governo Trump, quando os mercados começam uma escalada protecionista que vai aumentar a pressão de produtos chineses no Brasil.

O que eu desejo é que o Brasil possa, daqui 10 ou 20 anos, ter uma indústria importante, utilizando a abundância de matérias-primas com as quais o nosso país foi agraciado. Se a indústria não se desenvolver, vamos piorar a nossa posição relativa no mundo e não gerar riqueza para melhorar o nosso padrão civilizatório.

A escolha da CAMEX tem relação com isso: que país queremos ser?

 

*Milton Rego é Engenheiro mecânico, economista e bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Gestão pela Fundação Dom Cabral, desde 2014 é o presidente-executivo da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL).

 

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Ass. Brasileira do Alumínio
A Associação Brasileira do Alumínio – ABAL foi fundada em 15 de maio de 1970 pela Alcan Alumínio do Brasil Ltda, Alcominas (atual Alcoa Alumínio S.A.) e Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), empresas produtoras de alumínio primário, além das transformadoras Aisa Alumínio Indústria Ltda, Asa Alumínio S.A. Extrusão e Laminação e Kaiser Alumínio do Brasil S.A. A empresa Aisa foi incorporada, no início da década de 80, pela Alcoa Alumínio S.A. Instalou-se então um foro comum para a discussão dos assuntos pertinentes à indústria do alumínio, visando a conciliação de interesses entre produtores e transformadores, a ampliação da representatividade do setor junto ao governo e à comunidade ligada a essa indústria.

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