*Por Milton Rego

Durante o evento “Sustentabilidade 2017”, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em outubro do ano passado, lançamos o Relatório de Sustentabilidade da Indústria do Alumínio, já disponível no site da ABAL.

O encontro reuniu excelentes palestrantes – entre eles o professor Elkington, que lançou a ideia do Triple Botton Line nos anos 90 -, discutindo importantes temas sobre as empresas e questões da sustentabilidade.

Um dos debates mais interessantes nesse tema e que sempre me intrigou: por que uma empresa colocaria práticas sustentáveis com o meio ambiente e com a sociedade como um objetivo concreto, como uma missão corporativa? Por que não simplesmente seguir a legislação – que aparentemente mantém a governança sem necessitar maiores investimentos de recursos e tempo?

O que acontece é que esses temas de sustentabilidade cada vez mais estão e estarão nas decisões dos negócios das empresas. Sendo que o maior ou menor papel da importância no portfólio de cada uma será função do ambiente que essas empresas atuam – posicionamento na cadeia produtiva, exposição ao mercado global, território de atuação e concorrência.

Um debate muito parecido está sendo feito por outros países. É do que se tratam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS). Se trata de uma agenda colaborativa para o planeta e não podem ser enfrentados por um país individualmente. Um exemplo claro é o da mudança climática (objetivo 13); a redução dos níveis de emissões só tem sentido a partir de metas globais.

Essa necessidade de uma governança global para possibilitar a implantação de práticas sustentáveis me parece um dos maiores desafios do nosso século. Já que estamos falando em competição global, é importante que existam regras também globais sobre respeito ao meio ambiente, trabalho, governança… Quando não existe isso, se dá um “vazamento” de produtos, onde países de menor governança ganham mercados de países onde controle e busca de práticas sustentáveis pressionam os custos.

Essa discussão foi aprofundada por um palestrante no evento, o professor Marcos Troyjo da Columbia. A China se desenvolveu até agora baseada em um modelo que definitivamente não poderia ser exemplo de sustentabilidade. Operando dentro de uma matriz que seria impensável em um país democrático, a China promoveu a maior migração e a maior mudança de fertilidade da história e se tornou o país que mais emite Gases de Efeito Estufa (GEE).

Nesse ambiente, inundou o mundo de produtos baratos, impulsionando sua economia de 360 bilhões de dólares em 1990 para mais de 10 trilhões de dólares em 2016 (para comparação, o Brasil tem um PIB de menos de 2 trilhões). Mas, como nada tem apenas um lado, isso fez com que centenas de milhões de pessoas ultrapassassem a linha da pobreza.

Daí a pergunta: nesse ambiente, vale a pena para as empresas investir em sustentabilidade?

Eu acredito firmemente que sim. A percepção dos consumidores está mudando irreversivelmente para uma busca de produtos com baixa pegada ambiental. Certificações ambientais e sociais estão aumentando exponencialmente, enquanto a precificação do carbono avança e o consumo muda com uma economia compartilhada.

Não é fácil, mas é uma agenda que veio para ficar. O que nós (a indústria e o restante da sociedade) temos que fazer é buscar uma implantação de parâmetros de sustentabilidade dentro do panorama mais global possível. Temos que ajudar a implantar mecanismos que tornem cada vez mais transparentes os impactos ambientais dos produtos em toda a cadeia, como a ABAL está fazendo com a mineração de bauxita.

Temos que ajudar a implantar uma mentalidade de economia circular, minimizando resíduos, utilizando fontes renováveis, dando prioridade ao potencial de reciclagem. Temos que nos engajar na comunicação e disseminação desses valores.

Mas ao mesmo tempo temos que garantir a vitalidade e a continuidade das empresas brasileiras. Para isso, todas as vezes que formos propor algo, temos que pensar como a economia pode se adaptar aos novos parâmetros, como podemos promover a competitividade das empresas, como ajudar as pequenas e médias empresas a superar o gap de implementação de novas práticas sustentáveis.

Parece óbvio, mas não é. Algumas pessoas entendem a relação com a natureza como “soma zero”. O que o homem ganha, a natureza perde e vice-versa. Todas as amarras são bem-vindas. Tudo vale para a preservação. O aumento da população do mundo será feito sem consumo.

Eis o paradoxo dos nossos dias. Fica claro que a tese do professor Elkington continua atual: não existirá economia viável sem a visão de sustentabilidade e não existirá sustentabilidade sem uma economia viável.

Durma-se com um barulho desses…

 

*Milton Rego é Engenheiro mecânico, economista e bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Gestão pela Fundação Dom Cabral, desde 2014 é o presidente-executivo da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL).

 

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Ass. Brasileira do Alumínio
A Associação Brasileira do Alumínio – ABAL foi fundada em 15 de maio de 1970 pela Alcan Alumínio do Brasil Ltda, Alcominas (atual Alcoa Alumínio S.A.) e Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), empresas produtoras de alumínio primário, além das transformadoras Aisa Alumínio Indústria Ltda, Asa Alumínio S.A. Extrusão e Laminação e Kaiser Alumínio do Brasil S.A. A empresa Aisa foi incorporada, no início da década de 80, pela Alcoa Alumínio S.A. Instalou-se então um foro comum para a discussão dos assuntos pertinentes à indústria do alumínio, visando a conciliação de interesses entre produtores e transformadores, a ampliação da representatividade do setor junto ao governo e à comunidade ligada a essa indústria.

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