A decisão do governo dos Estados Unidos (EUA), anunciada nessa quarta-feira (2), de elevar as tarifas de importação em 10% para o Brasil e a sobretaxa de 25% sobre os produtos de alumínio brasileiros, que está valendo desde 12 de março, acendem um sinal de alerta em relação aos impactos que podem ser causados no nosso país.
A Associação Brasileira do Alumínio (Abal) chama atenção para os potenciais efeitos indiretos e estruturais de médio e longo prazo das tarifas sobre o alumínio.
A associação ressalta, principalmente, a suscetibilidade do Brasil aos desvios de comércio e à desestruturação da cadeia de reciclagem de alumínio nacional, que hoje configura uma das maiores vantagens competitivas do Brasil para seu reposicionamento na cadeia global de suprimento.
Para a associação, a medida tem implicações que vão além do impacto comercial imediato, uma vez que reflete uma estratégia mais ampla de coordenação entre políticas industriais, tarifárias e de defesa comercial, em curso tanto nos Estados Unidos como em outras economias, como resposta a um processo global de desindustrialização, impulsionado por práticas comerciais anticompetitivas e pelo aumento dos custos de energia.
Em comunicado, a Abal informa que “embora a participação do Brasil nas importações americanas de produtos de alumínio seja pequena (menos de 1%), os EUA são um parceiro comercial estratégico, representando 16,8% das exportações brasileiras do metal em 2024, o equivalente a US$ 267 milhões e 72,4 mil toneladas, das quais 54,2 mil estavam sujeitas à Seção 232. Desse volume, 76% corresponderam a chapas e folhas de alumínio.”
Apesar de ser conceitualmente legítima, a associação avalia que essa estratégia deveria considerar a complexidade, a interdependência e os riscos associados à fragmentação da cadeia global do alumínio.
“Há ainda dúvidas sobre a efetividade dessas tarifas no alcance dos objetivos propostos. A desproporcionalidade das medidas pode elevar significativamente os custos de produção de setores estratégicos para a economia americana, como automotivo, aeroespacial, de defesa e de embalagens, com potenciais efeitos inflacionários”, reforça a Abal.
Diante desse cenário, é fundamental que o debate sobre proteção da indústria e fortalecimento de novas capacidades produtivas seja conduzido a partir de uma visão sistêmica.
Para que o fortalecimento de uma indústria nacional seja sustentável no longo prazo, é necessário considerar a totalidade e a interdependência dos elos produtivos, com base em uma cadeia integrada, resiliente e orientada ao atendimento da demanda doméstica.
Esse cenário alerta ainda para os riscos dos esforços que a indústria brasileira do alumínio vêm realizando para recuperar sua autossuficiência no fornecimento do metal. Medidas adotadas por outros países podem gerar desequilíbrios capazes de fragilizar esse processo e colocar em risco a consolidação de uma cadeia produtiva integrada, sustentável e voltada ao atendimento da demanda doméstica.
Portanto, a Abal reforça a importância do fortalecimento dos instrumentos de defesa comercial e da recalibração da política tarifária nacional, com o objetivo de corrigir distorções e evitar que práticas assimétricas comprometam a competitividade da indústria brasileira do alumínio.
Impactos da sobretaxa para o setor de máquinas e equipamentos
Sobre as tarifas de 10% para importação definidas por Trump para o Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) reforça que alterações abruptas nessas tarifas tendem a resultar em insegurança comercial e econômica.
Segundo dados da associação, do total da receita do setor de máquinas e equipamentos, cerca de 20% é direcionado ao mercado externo. Em 2024, foram exportados US$ 13,2 bilhões, destes, 25% ou US$ 3,5 bilhões, foram direcionados para os Estados Unidos, o equivalente a 7% da receita total do setor. No mesmo período, o Brasil importou cerca de US$ 4,7 bilhões em máquinas e equipamentos de origem norte-americana, o que torna o país, portanto, deficitário.
Com a medida do governo norte-americano, a Abimaq avalia que o Brasil será impactado negativamente em suas exportações para os Estados Unidos, uma vez que o país fica menos competitivo em relação à indústria local de máquinas e equipamentos.
“Podemos citar como exemplo máquinas agrícolas, rodoviárias e máquinas para a indústria de transformação. Esses produtos, entre outros, são produzidos tanto pelo Brasil como pelos Estados Unidos, assim o aumento da tarifa significará perda de competitividade em relação aos produtos norte-americanos”, explica a associação em comunicado.
A Abimaq reforça ainda que considera que a melhor opção é uma negociação por parte do governo brasileiro e que a expectativa é que a decisão sobre as taxas seja revista no caso do Brasil, a fim de que a relação comercial seja preservada.